por Alexandre Mesquita Lentz Monteiro.
Identificação: C, sexo feminino, 59 anos, natural de Itabirito, onde ainda reside, viúva, do lar, mora com uma filha e tem mais dois filhos.
A Sra. C compareceu ao Ambulatório Bias Fortes em 11/05/2009 para tratamento de anemia (chegou com diagnóstico feito por outro médico). Queixava dores e edema nos membros inferiores, astenia, hiporexia e emagrecimento. O exame físico revelou palidez cutâneo-mucosa e sobrepeso. Ela trouxe consigo, nesta 1a consulta, exames que revelaram hemoglobina= 6,1g/dL e pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF) positiva. Estava utilizando sulfato ferroso (250mg 4x dia) e omeprazol (20mg mid pela manhã).
Ela já era histerectomizada e decidimos investigar se a anemia era causada por sangramento no trato gastrointestinal. Solicitamos uma endoscopia digestiva alta (EDA) e um exame para avaliar o trato intestinal baixo (enema opaco ou colonoscopia, o que ficasse pronto antes).
Na EDA, a mucosa gástrica apresentava lesões de caráter inflamatório nas regiões oxíntica e antral da mucosa, com erosões rasas esparsas; biópsia apresentou resultado negativo quanto à presença de H. pilory. O enema opaco revelou ausência de lesões neoplásicas ou divertículos.
Ela retornou no dia 24/08/2009 relatando remissão dos sintomas. Ocorreu melhora dos índices hematimétricos. Hb: 11,9 g/dL (VR: >12); hematócrito: 34% (VR: 37-40%).
Concluímos que a anemia era provocada pelas lesões gástricas. A conduta foi manter o uso de sulfato ferroso (para restabelecimento dos níveis de Fe2+ e hemoglobina) e omeprazol (para proteção da mucosa gástrica e controle da HDA).
A anemia ferropriva possui três causas principais: alimentação inadequada, má absorção de ferro e hemorragia (do trato gastrointestinal ou por perdas menstruais). A hemorragia, nem sempre percebida pelo paciente, pode ser causada por neoplasia gastrointestinal, a segunda em mortalidade das neoplasias não-cutâneas. Adultos com mais de 50 anos e idosos devem fazer este tipo de avaliação antes do início do tratamento. A utilização do sulfato ferroso antes da avaliação adequada pode falsear alguns exames laboratoriais.
A paciente recebeu alta do ambulatório com orientações sobre manutenção do uso dos medicamentos - sulfato ferroso (250 mg 4x dia) e omeprazol (20 mg mid pela manhã), alimentação e prática de exercícios físicos (pelo sobrepeso), cancelamento da colonoscopia e relatório ao cardiologista que a acompanhava (era portadora de HAS controlada).
Para comentar:
1) Porque a paciente apresentava sintomas tão brandos com um nível tão baixo de hemoglobina?
2) Nossa conduta seria diferente se a PSOF estivesse negativa? Qual o valor do exame nesta situação?
3) Que exame complementar deveria ter sido feito pela paciente no momento do diagnóstico da anemia (para esclarecer a etiologia) e durante o acompanhamento (para avaliar a resposta ao tratamento)?
4) Se a EDA fosse realizada antes, o enema opaco poderia ter sido evitado?
5) O que mostram as fotos acima? Qual a sua relação com este caso clínico?
Fim do caso clínico.


